Humanos como recursos

Um ensaio sobre as transformações do trabalho contemporâneo diante de perspectivas materiais, culturais e simbólicas

MARKETING & COMUNICAÇÃO

Bruno Giordano

5/7/20265 min ler

Sou acadêmico de uma época em que tive que ler livros para aprender a escrever nos termos acadêmicos, e se opor a isso era mal visto pelos meus pares. Podemos pressupor, ao ler essa frase, que estamos falando de um tempo muito antigo e de um homem com mais de 60 anos, mas não. Tenho 33 anos e recebi meu diploma de mestrado em 2019.

Iniciar um texto sobre o mercado de trabalho dessa maneira deflagra um passado muito próximo e um presente de transformações contínuas, sem previsão alguma de estabilidade. Caberia pedir um pouco de calma ao tempo, ou à tecnologia, para que conseguíssemos nos acostumar com as mudanças, ou ao menos nos conformar com essas mudanças ultrassônicas que reorganizam e descompassam tudo ao mesmo tempo?

Onze entre dez livros e autores nomearam a tecnologia dos últimos anos como a grande responsável por acelerar mudanças estruturais no planeta. Das máquinas ao computador. Do computador à internet e aos smartphones. Dos smartphones às redes sociais e aos algoritmos e, por fim, chegamos às inteligências artificiais. Da concepção da internet como a conhecemos até os dias de hoje, o avanço dessas inteligências ganhou tamanho impulso que chamar aparelhos móveis de “smart” soa também obsoleto.

Convém destacar que há muito tempo se fala em inteligência artificial, e o termo já era amplamente empregado nos videogames, quando ainda não havia competição online e, a depender da dificuldade da IA, éramos tranquilamente superados. Como possivelmente seremos em um futuro próximo.

Daí surge a primeira dúvida, polêmica e filosófica: para onde vamos quando as máquinas não precisarem mais de nós? Estamos certos de que não há mais volta e vivemos uma espécie de roleta-russa sobre qual emprego perderá primeiro o sentido no futuro. Até lá, ensaiamos nossa retirada como se fôssemos os últimos profissionais da Terra. A diferença é que sempre fomos substituídos por outros de nós mesmos, mas nunca por algo que, até então, nos auxiliava. Fica um ressentimento curioso diante de uma invenção que não tem materialidade alguma.

Elas nos aceleraram, nos bombardearam de informações e nos viciaram em conteúdos que oferecem pequenas doses de dopamina. Agora, começam também a roubar funções e caminham para uma independência progressiva. Embora, ao longo da história, tudo tenha se reorganizado em alguma medida, estamos diante de um momento em que dois fenômenos ampliam a imprevisibilidade: a perda gradual dos ofícios para as inteligências artificiais e o avanço disruptivo da Geração Z no mercado de trabalho. Soma-se a isso um terceiro elemento, não entendido exatamente como fenômeno, mas como um regime que desloca o humano mais como recurso do que os recursos para humanos.

O primeiro e maior deles são os ofícios. Em suma, o mundo entrou na internet, que expandiu continuamente suas funções e transformou o ambiente virtual em uma extensão quase total da vida cotidiana. Agora, tudo parece estar a um passo de ser substituído por agentes que pensam, respondem e simulam reflexão, embora não existam além do próprio espaço digital. Do pó ao pó, o virtual nunca precisou sair de um para chegar ao outro, então que se finde em si mesmo.

Valorizam-se, entretanto, as manualidades, os ofícios que, por enquanto, ainda não encontraram substituição definitiva. Carpinteiros, pedreiros e outras atividades manuais, assim como a própria escrita à mão, vivem uma dualidade curiosa: sobrevivem em um tempo em que muitos já não enxergam necessidade em realizá-las, ao mesmo tempo em que se tornam artigo de luxo quando alguém realmente as domina.

Nas relações humanas, porém, substituição talvez não seja o termo mais adequado, embora já existam experiências pontuais de relações híbridas. Vale lembrar a máxima acadêmica segundo a qual a tríade casa-escola-igreja passou a dividir espaço com outra: televisão-internet-propaganda, ambas influenciando diretamente a formação dos indivíduos. Podemos admitir que a primeira tríade era mais simples, mais manual e, por que não, mais humana, enquanto a segunda já coloca as mídias de massa e as redes sociais como responsáveis por mediações que influenciaram mudanças sociais positivas, como a comunicação direcionada à ebulição de pautas identitárias e à retomada de ideais coletivos, ou negativas, como a banalização das agressões virtuais, por exemplo. De qualquer forma, podemos admitir que há uma influência direta das tecnologias sobre o comportamento humano, agora mais imediatista, mais opinativo e mais ansioso do que em qualquer outra geração.

É natural que a geração nascida nesse cenário confuso, como a primeira plenamente integrada à tecnologia, receba e também transmita sinais contraditórios. O que esperar da geração mais disruptiva do mercado de trabalho? A geração que menos bebe é também uma das mais sedentárias; a que menos se expõe é, paradoxalmente, a mais hiperconectada; a que parece menos coletiva está inserida justamente nas tecnologias que impulsionam movimentos coletivos. A geração que tem desbancado valores millenials no ambiente de trabalho, priorizando saúde mental e bem-estar e que, pela primeira vez, não coloca aumento salarial e cargos de liderança como prioridades absolutas, é também percebida como mais silenciosa, mais retraída e, em alguns aspectos, até mais conservadora.

Podemos, então, classificá-los como disruptivos, como a geração da revolução silenciosa ou apenas como sujeitos desenvolvendo comportamentos defensivos dentro de um mercado canibal que insiste em performar à exaustão e ainda se orgulha disso. Qualquer um dos caminhos, entretanto, aponta para a mesma direção: a ausência de direção alguma.

Vivemos uma batalha intensa ao longo da história em busca de minimizar os impactos do ser humano sobre a natureza, enquanto observamos o que a sociedade pretende ao extrair ao máximo os recursos naturais: lucro. O terceiro fator se enquadra justamente no contexto da exploração, porém menos como fenômeno observável e mais como um regime discursivo que consolida a exploração do trabalho humano por meio da produtividade e da performance.

O próprio termo “recurso” remete à ideia de desenvolvimento, riqueza e instrumentalização. Fala-se em capital humano ou gestão de pessoas, por exemplo. Tratar o ser humano como “matéria-prima sofisticada”, ainda que seja um simples jargão corporativo, revela muito mais do que um vocabulário usual. Denota a maneira como o mercado passou a compreender o humano dentro de suas escalas produtivas.

Os discursos corporativos falam sobre humanização, saúde mental e bem-estar, mas seus objetivos frequentemente transformam emoções, afetos e subjetividades em ativos administráveis. A própria ideia de bem-estar passa a ser condicionada à performance: o bem-estar melhora a produtividade, descansar melhora o rendimento. Bem-estar deixa, então, de ser entendido como direito humano para se tornar benefício corporativo, ao qual, convém destacar, poucos realmente têm acesso.

Se não sabemos para onde vamos depois do descarte, talvez seja mais honesto pensar o que faremos até lá. O mercado, sempre eficiente em transformar tudo em métrica, ainda não encontrou um indicador onde caiba o carpinteiro, o artesão e quem escreve à mão sem motivo aparente. Talvez seja justamente no mundo offline que sobreviva a tão famosa resiliência humana.

A grande ironia é que, ao eleger a performance como medida de tudo, descobrimos também nossa própria finitude. O capitalismo percebeu tarde demais que o humano é, por natureza, um recurso impreciso, emocional e contraditório. E agora parece querer retornar exatamente ao sistema que sempre rejeitou por considerá-lo insuficiente. Nesse ponto, talvez todas as gerações estejam finalmente unidas: no descontentamento.